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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Auto-ajuda para brasileiros no exterior sofrendo de baixa auto-estima

No momento que escrevo estas linhas estou muito feliz.
Apesar do frio, que dói, mas ensina, apesar da saudade que as vezes me acomete, tenho de afirmar que estou feliz, sou feliz na Alemanha. Nao que eu nao fosse feliz no Brasil, mas eu nao estava feliz comigo mesma.
A experiência de estar aqui todos estes meses, logo 2 anos, tem sido um grande aprendizado. A cada dia, tenho de transpor algum limite que eu construi para mim mesma ao longo dos meus anos de vida. Limites emocionais, intelectuais, físicos, sociais, culturais.

Hoje, depois de praticamente um mês sem dar as caras por aqui, apareco para registrar a sensacao de plenitude, leveza e liberdade que sinto neste momento.

Ontem , eu estive trabalhando, finalmente em algo que eu queria muito, eu passei esta última semana horas, horas e mais horas fazendo este trabalho, pesquisando, escrevendo,  e aprendendo como fazê-lo. Sim, eu comecei a fazer o trabalho, porque me perguntaram: "Vc sabe fazer isso?" E eu me senti tao feliz pela proposta que, apesar de saber que eu nunca tinha feito sozinha e nao tinha idéia de como fazia, eu disse "Sim. Pra quando deve ficar pronto?". Eu o fiz, e no prazo determinado, e ficou liiiiinnnndo!!

Me peguei entao descobrindo onde eu tinha chegado naquele momento, onde eu estava, como eu estava, no que eu me tornei nos últimos meses, e fiquei satisfeita. E fiquei agradecida a mim mesma por ter tomado a decisao tao difícil no comeco, de ter ficado aqui. Eu sabia que todo o esforco que eu estava fazendo serviria para algo, para me fazer crescer.

Há alguns meses atrás eu quase desisti, quase comprei minha passagem de volta, já estava mesmo com as malas prontas, mas a sensacao de derrota, de abandono do jogo que senti, nao me deixou desistir.
E eu percebi que eu já estava aqui, já tinha deixado minha antiga vida, já nao estava podendo exercer minha profissao, já tinha ficado sozinha, já tinha me fudido pra caralho e chorado pra caralho, e que eu nao tinha mais nada a perder!! Eu já estava fudida! Eu já tinha me fudido! EU JÁ TINHA ESCOLHIDO ME FUDER !!!! Entao, o mínimo que eu podia fazer para valer a pena tanta fudecao.
E eu decidi nao ficar mais sentindo saudade, nao ficar me submetendo a uma vida que eu nao teria no Brasil e realmente construir as coisas por aqui.

E foi só tomar a decisao que as oportunidades comecaram a aparecer, inicialmente oportunidades que me fuderam sempre um pouquinho mais, mas que em vez de chorar eu dizia "Ok, eu já estou fudida mesmo, nao tenho nada mais a perder, eu quero que vá tudo ao raio que o parta!!!  (Sim, tem horas que eu falo palavrao, e tem sido muito bom.)

Para vcs terem idéia, eu me resignei a ser humilhada por muita gente mau humorada, chata, querendo se sentir superior porque domina a língua melhor do que eu,  (detalhe, a maioria estrangeiro também!) E se fosse no Brasil eu nao aturaria esta situacao, mas eu pensava: "Ah, deixa quieto, eu tenho que aprender, as coisas sao assim mesmo, um dia eu volto para o Brasil e tudo será melhor... " Aprender?  Aprender o caralho! E vai dizer que no Brasil também nao tem filho da puta? Entao agora quando eu encontro um desses infelizes, eu aproveito a oportunidade de xingar numa língua que ele nao vai entender e digo com ares de estar falando algo muito sério: "Puta merda, mas vc é mesmo um cuzao-filho-de-uma-puta,  devia mesmo é ir tomar bem no meio do seu cú",  e quando estou de bom humor e sinto pena do coitado, dou um sorriso amarelo, finjo bom humor e digo: "Nossa, vc deve estar muito infeliz hoje, que vida ruim que vc tem, vc devia tirar umas férias, ir a uma praia, tomar um pouco de sol, beber cerveja, beijar de língua, dancar.... ia te fazer bem!" 

E o mais interessante, é que adotar esta forma de acao mudificou bastante e para melhor o meu humor antes triste, resignado, frustrado. Agora, quando eu percebo oquê estou falando, inevitavelmente comeco a rir da situacao, principalmente se o infeliz nao entendeu bulhufas do que eu estava dizendo e ficou me olhando com cara de pastel.

Entao agora eu estou sempre de bom humor.  E o bom humor tem me feito mais confiante, e eu nao me contento mais com pouco: já que é pra eu me fuder, quero que seja uma foda da hora mano! Afinal foda ruim ninguém merece.

Eu eu devo registrar que hoje eu acho que  perdi meu trabalho no restaurante, que eu estava ODIANDO  há meses (?!), mas pensava: "Ah nao, é um salário fixo, que paga tudo direitinho, com contrato, pagando imposto... blá-blá-blá". Mas depois de ontem ter conseguido, pela primeira vez, terminar com sucesso um trabalho foda aqui, eu volto a fazer trabalho bracal no restaurante, e vem o meu chefinho com a sua comum delicadeza gritar na minha orelha e me tratar como uma débil mental. Anteriormente, por nao ter como responder, por causa da língua, eu fui me habituando a abaixar a cabeca e tentar fingir que nao ouvia, mas hoje eu lhe disse: "Olhe, está difícil trabalhar com vc, vc está muito mau humorado e está me deixando mau humorada também, e eu nao quero ficar mau humorada! E ele respondeu nada suavemente: "Se vc nao quer trabalhar com meu mau humor entao vá embora, adeus!" Por um micro-momento eu relutei mentalmente: "Vixi, se eu for estarei fudida, acho que terei perdido o emprego, se eu ficar tenho de engolir meu orgulho, abaixar a cabeca mais uma vez e dar uma de que  preciso muito deste trampo.... hum... mas eu preciso do trampo mesmo.... ah, mas só pela grana! .... hum... ah.... mas eu fiz um trabalho foda ontem, eu posso fazer coisa muito melhor do meu tempo, e eu vou conseguir coisa muito melhor, na minha área, e logo! ....  Mano, fudida por fudida, eu já estou fudida há muito tempo: "Ok, adeus, passe bem!"

Peguei minhas coisas e vim para casa.
E estou feliz.

Fudida porém feliz !!!!

;-)


PS.a): O texto pode parecer irônico, mas nao é. Eu estou realmente feliz.

PS.b): "A maior recompensa do nosso trabalho nao é o que nos pagam por ele, mas no que ele nos transforma"
                     John Ruskin

3 comentários :


  1. Vc infinitamente me inspira, me orgulha e me ensina. Fico muuuito feliz por vc estar aqui "perto" e por eu poder me guiar pelas suas descobertas!
    Um abraço beeeem carinhoso e agradecido nesse momento :)

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  2. Difícil ler algo tao sincero entre nós "fudidas" na Alemanha. A maioria de nós finge que tudo está perfeito, mas na verdade tantas feridas abertas! Espero que vc esteja feliz também hoje!
    Ótima semana!

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  3. Gildeny Gomes Brasileira lutando em Espanha para salvar a vida da minha filha Meritxell de 5 anos ,que faz poco tempo falava português e castelhano ,dançava samba ...agora já não pode nada ...eu aqui muito só e doente ,minha filha se morre e estou desesperada ,doença degenerativa chamada Tay Sachs mortal não tem cura... Minha família em Brasil não pode vir me ajudar ,a família do meu marido não me ajuda em nada ,eu câncer de útero estava grávida de 3 meses...

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