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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sobre "A falta de prazer dos alemäes"

  Outro dia aqui no trabalho (detalhe: faço teatro!) um dos rapazes alemães, reclamando porque sempre nós estrangeiros reinvidicamos tempo livre justificou: "E não vai dizer que vc passaria o seu último dia de vida relaxando na praia?" E eu disse: "Mas é claro! E de preferência com um monte de amigos cantando e dançando!" Ele respondeu contrariado: "Pois eu passaria trabalhando, produzindo" ...

 Hoje uma conhecida publicou esta reportagem no Facebook, e eu vi nela confirmada meus ruminamentos, estranhamentos e choques que as vezes tenho com os alemães.

 Tive de colar aqui:

"A falta de prazer dos alemães

Segundo pesquisa, eles estão tão preocupados em impressionar e sobrecarregados que já não sabem como desfrutar a vida


29 de maio de 2012 | 3h 02

MARIA, MARQUART, DER SPIEGEL, É JORNALISTA - O Estado de S.Paulo
Chegou um momento em que Sven simplesmente perdeu o controle. Outros membros do grupo de debate tinham descrito em detalhes como passavam as horas depois do trabalho na companhia dos parceiros e aproveitavam o fim do dia. "Tudo isso é ótimo para vocês!", disse Sven a um dos participantes. "Mas, antes de mais nada, é preciso ter essa oportunidade! Meu chefe costuma despejar algo na minha mesa pouco antes da hora de encerrar e, quando chego em casa tarde, minha mulher está furiosa porque teve de cuidar sozinha do nosso filho e das tarefas de casa." Ele diz que, diante de tudo isso, a ideia de uma noite relaxante desaparece completamente.
Talvez Sven se sinta melhor ao saber que não é o único a enfrentar esse problema.
O homem de 36 anos participou de um estudo divulgado pelo Instituto Reinhold, voltado para consultoria e pesquisa de mercado com sede em Colônia, cujo resultado revelou que 46% dos alemães dizem se ver cada vez mais privados da oportunidade de desfrutar da vida por causa do estresse do cotidiano e a sensação de estarem sempre à disposição do empregador. A dificuldade era ainda maior entre os participantes mais jovens do estudo, dos quais 55% disseram ter perdido a capacidade de se sentir bem.

Seja com relação à comida, ao álcool, às férias ou ao relaxamento - os alemães parecem não ter tempo livre para desfrutar o que quer que seja.
Na verdade, eles parecem ter dificuldade para esquecer os problemas mesmo durante o sexo. Segundo os pesquisadores, o resultado pode ser resumido da seguinte maneira: "Nosso gene da alegria mostra-se cada vez mais disfuncional - não sabemos mais como aproveitar a vida".

Imagem. Os resultados condizem com a imagem que muitos europeus fazem dos alemães da era de crise econômica, considerados trabalhadores excessivamente dedicados e incapazes de se divertir mesmo durante as férias na praia. A imagem positiva que os alemães projetavam durante a Copa do Mundo de 2006 parece ter desaparecido.
"Naquela época, os alemães realmente pareciam irradiar um amor pela vida", disse a psicóloga Ines Imdahl, do Instituto Reinhold. "Mas este clima começou a mudar a partir de 2008." Ela acredita que o problema está no fato de os alemães sentirem o peso da crise atual que envolve o endividamento e a moeda da Europa. "Isso vai além de uma simples queixa", acrescenta ela. "As pessoas têm a sensação de que precisamos vencer a crise sozinhos." Mas os alemães não sofrem apenas por causa da crise. O principal obstáculo que eles precisam superar é o próprio perfeccionismo.
Durante as horas de entrevistas individuais e em grupo, os pesquisadores analisaram as formas de prazer procuradas por 60 pessoas diferentes.
Investigaram também os resultados de uma pesquisa representativa envolvendo mil homens e mulheres encomendada pelas empresas Diageo e Pernod Ricard, do ramo das bebidas alcoólicas. Entre os participantes da pesquisa, 81% disseram que desfrutam de mais prazer após terem conquistado algo. "Como diz o ditado, os negócios vêm antes do prazer", disse a participante Wiltrud, de 61 anos.
Mas esta máxima não parece ajudar os alemães - eles parecem até se sentir pressionados a desfrutar das coisas. "As pessoas disseram com frequência que chegavam em casa após um dia estressante, mas eram incapazes de apontar se tinham realizado algo com seu tempo", relatou Ines. "Ainda por cima, as pessoas ao seu redor lhes diziam, 'Apenas relaxe'.

O relaxamento passa, então, a ser uma obrigação." Enquanto isso, as chances de se criar uma sensação de bem-estar podem ser encontradas por toda parte - uma taça de vinho, um relaxante banho de espuma, ou um agradável restaurante. Mas isso também parece afetar os alemães negativamente. "Esta fartura de opções leva muitos a se sentir pressionados, achando que precisam aproveitar tudo", diz Ines.
Ao longo do estudo, os pesquisadores conseguiram desvendar uma sequência tipicamente alemã de etapas para o desfrute, algo que chamaram de "DNA do prazer". A primeira etapa envolve a sensação de merecer algo.
A isso se segue a preparação para o tão ansiado momento de prazer, como o agendamento de um dia de tratamentos para o bem-estar. Mas então surge o grande desafio: deixar as preocupações de lado e esvaziar a mente. Somente um momento surpreendentemente positivo pode levar a uma sensação de desfrute plenamente integrada.
Mas muitos alemães parecem carecer de elementos cruciais do "DNA do prazer". Ainda que 91% dos participantes do estudo tenham dito que o prazer faz a vida valer a pena, apenas 15% foram capazes de lembrar de momentos nos quais tivessem deixado as preocupações de lado e se sentido realmente felizes.
Dois terços dos participantes imaginaram que poderiam chegar a essa sensação se fizessem algo provocador. Um exemplo? Um motociclista disse ter vivenciado um momento de êxtase ao lançar a fumaça de seu escapamento na direção do motorista de um conversível ao acelerar diante de um sinal verde.

Mas há outro fenômeno que desempenha um papel na cultura alemã do prazer - a inveja do bem estar alheio. "Muitos se perguntam como os outros conseguem ser felizes", disse a psicóloga Ines. Trata-se de uma mentalidade teutônica que também pode ser observada com relação à crise do euro. "Quando nos queixamos da alta pensão recebida pelos gregos e seu grande número de dias de férias, a dinâmica prazer-inveja certamente desempenha um papel", diz ela. Mas será que os alemães prefeririam ser gregos? "Esse tipo de coisa não é para nós", diz ela.
Talvez os alemães jamais possam chegar ao nível de relaxamento do sul da Europa, mas seria de se esperar que eles pudessem ao menos relaxar nos seus momentos de intimidade.
O estudo revelou que isso não é verdadeiro. As entrevistas revelaram que os alemães não conseguem esquecer os problemas nem mesmo durante o sexo. Muitos disseram ter imagens de filmes e anúncios rodando incessantemente na cabeça. "Isto resulta na obrigação de causar boa impressão até mesmo no sexo", diz Ines. Em outras palavras, eles se preocupam em encolher a barriga em vez de aproveitar o momento.
  
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Agora imagina o tédio que bate as vezes....

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Desabafo na madrugada

Eu não passo por aqui há muito tempo, eu sei.
Resolvi escrever agora, de-repente, porque estou num momento meio crítico, fazia algum tempo que eu não passava por isso. Eu estou à flor da pele, chorando o tempo todo, e não é TPM, tenho certeza.
Então você já está avisado, este é um texto deprê. É mais um desabafo, e dessa vez eu não vou ficar tentanto me fazer de positiva como eu sempre faço, maquiando que estou ótima, que tudo vai dar certo no final. Neste momento não estou tão ótima... (Calma! Não estou cagada, descabelada, entupida de drogas, jogada pelo chão, pelo contrário, hoje até tomei banho, passei creme no cabelo, depilei o suvaco porque estava ficando alemão, passei hidratante cheiroso no corpo e pus roupa limpa! Afinal cuidar da higiêne é fundamental pra auto-estima, ainda mais aqui onde ela diminui absurdamente... ).
 Mas então, voltando ao momento de desabafo deprê:
Estive no Brasil durante o último fim de ano, no total acho que foram 2 meses. No final de 2010  também fui para o Brasil no inverno, fiquei 3 meses. Ou seja, estou desacostumada do inverno europeu, despreparada psicológicamente para essa prova.
Neste último perído no Brasil prestei muita atenção no meu estado de humor. Percebi que cheguei ao lá, especialmente onde está minha família, amuada, calada, murcha, sem Deus no coração eu diria,  e fui melhorando, melhorando, melhorando, até que quando estava próxima da minha volta para a Alemanha eu estava radiante. A vida estava linda, o dia acordava brilhante e cheio de esperança, novidades, gente, cores, sabores! E desde que eu saí pela portinha de desembarque, onde as pessoas ficam esperando os conhecidos, no aeroporto daqui de Frankfurt, voltei a enxergar tudo cinza. Olhei em volta, sorridente e não vi ninguém sorrindo, pelo contrário, vi gente amudada, com a cara amarrada, vi um homem jovem com uma cara tão fechada e uma aparência tão baqueada que me lembro que pensei: "Nossa, viva o clima do inverno! Esse deve estar sendo terrível!" E o silêncio........ muito silêncio. A rua a um cemitério.
E está difícil. Nos últimos dias pelo menos faz  sol, mas temos entre -12° e -8° (Ainda bem que eu não estou na Russia, lá está muito piór, imagina!).
Eu tenho que ficar arrumando motivos pra sorrir, as vezes fico procurando piadas na internet! Não tenho conseguido sair muito na rua, como estou ainda de férias do trabalho, se eu quiser sair tenho de arrumar motivo.  Está muito frio lá fora. Pra mim  é  muito frio. Mas piór mesmo que o frio é o tédio, está muito, muito, muito entediante. As pessoas estão sem brilho, todo mundo de preto, marrom, cinza, azul escuro...Todo mundo apático, pálido.  Dificilmente alguém sorri para mim e tenho a sensação de que ninguém se interessa por mim realmente, que ninguém se interessa por ninguém....
Hoje falei pelo telefone com minha mãe e na despedida ela disse: "Toma cuidado aí Lú, não vai ficar muito no frio, nem ir em lugar perigoso..." Eu achei tão doce, no Brasil eu daria um pequeno sermão pedindo para ela não me tratar mais como criança, aqui eu me senti tão confortada ouvindo ela falar assim comigo. E desde que desliguei o telefone estou derramando lágrimas gratuitamente. Em 2 semanas de regresso estou num estado de carência vergonhoso, lastimável.  Quando estou forte como fico no Brasil não tenho problemas em ficar sozinha, mas agora estou uma manteiga, e nem estou realmente só, mas ainda sim me sinto muito solitária. Só alivia quando um dos gatinhos vem brincar comigo ou me pedir comida, aí eu falo com eles em português e parece até que eles fingem que entendem...
Fiquei viciada no carinho que recebi no Brasil e agora sofro de abistinência.  Até desconhecidos na rua foram tão simpáticos e atenciosos comigo!
Me lembrava vagamente que no ano passado, quando voltei de lá também levei um bom tempo para aceitar a nova realidade, mas tinha perdido a noção de como era. Mais um motivo pra eu estar registrando isso aqui agora.
Eu voltei com vontade de fazer tanta coisa, tantos planos, mas pelo visto só quando voltar a esquentar e as pessoas voltarem a sorrir pra eu me recordar desta animação... Enquanto isso eu hora luto contra o tédio e o desânimo e  ligo uma música alta, hora me entrego e fico chorando no sofá... 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Entre Lá e Cá ainda fico Eu.

Essa noite não dormi quase nada:

Está aberta a contagem regressiva para atravessar o Atlântico mais uma vez! No próximo dia 11 volto para a Alemanha depois de três meses no Brasil.
 Eu não sei se outras pessoas passam por isso também, mas estes momentos de idas e vindas me fundem a cuca! Ainda mais que desta última vez estava desde maio de 2009 sem ver a terrinha, ou seja, 18 meses!
(Estava morrendo de saudade, quase enlouquecendo de saudade, tanto que fiz questão de vir pra ficar o máximo de tempo que eu podesse!) Uma semana antes da data embarque para o Brasil tive insônias regulares, muita ansiedade, frio na barriga, insegurança. Minha cabeça repetia a mesma pergunta: será que o Brasil para mim virara um sonho que não corresponde à realidade?  Porque depois de muito tempo sem voltar, a imagem do Brasil que vinha á minha cabeça era de um paraíso tropical, cheio de sol, mar, cores, samba, árvores imensas e pessoas alegres. Me sentia uma estrangeira que havia visto o Brasil numa revista de turismo!
E eu embarquei com a imagem do paraíso tropical, parecendo um zumbi, com olheiras enormes e muita ansiedade. Cheguei me sentindo um zumbi-precisando-comer-miolos.  Não encontrei o paraíso tropical, encontrei o interior de São Paulo, que aliás está muito bonitinho. Não me decepcionei, mas percebi que eu havia esquecido meu passado! Alguns dias na casa da minha mãe e eu tive muitas viagens de volta no tempo! Sabe quando vc liga a memória externa no computador e demora um tempinho para abrir os arquivos porque fica passando aquela lanterninha revisando todo o conteúdo que está guardado lá dentro? Me senti exatamente assim. Eu passei vários dias com muito sono e cansaço, dores-de-barriga por causa da comida diferente, cansaço por causa das informações novas, da sensação corporal diferente,da confusão mental por causa da nova cultura e readaptação á língua, assistir televisão era tão estranho!  Até que de-repente voltei a ter energia e coragem para sair para o novo mundo.
Me senti um pouco estrangeira. Parecia que as pessoas me olhavam. (Talvez porque na Alemanha as pessoas não se olham tanto como aqui!) Algumas depois tive uma forte gripe e minha cabeça não deixou de ficar registrando as diferenças no clima, no jeito das  pessoas, nas ruas, no modo de vida. Uma mistura de deslumbre e tristeza, porque aos meus olhos o que é belo, fica ofuscantemente belo e o que é feio, fica nauseamente feio.
Estava muito feliz de estar aqui mas de-repente batia uma dor no peito, uma falta de lá!
E eu percebi que passei a ter dois mundos que eu não consigo juntar e não posso viver ao mesmo tempo! Se estou lá sinto falta daqui, se estou aqui sinto falta de lá! Me sinto vivendo uma vida de metades. Metades de amigos, metades de famílias, metades de trabalhos. Em boa parte do tempo não consigo estar num dos dois lados por inteiro, está sempre faltando um pedaço. O pedaço no qual eu vivo e o outro que vive sem mim.  Independente da minha saudade e distância as pessoas tocam suas vidas, casam, descasam, têm filhos, prosperam, fazem novos cursos, novos trabalhos, conhecem novas pessoas. Prédios novos continuam sendo erguidos, estradas são abertas, aparecem novos artistas, novas modas, novas bordões. No momento o Brasil tem sido o que passa mais tempo vivendo sem mim, isso me assusta um pouco... Aliás aos poucos noto que se antes eu falava co milhes de pessoas por aqui, hoje são apenas dezenas, será que um dia serei esquecida?

 
Lá eu sou mais só, mas me sinto mais forte e capaz. Normalmente tenho muito ânimo para vencer as dificuldades de viver naquele contexto, cada dia é um desafio, me sinto desbravadora e única. Mas será que vou conseguir ficar lá pra sempre e passar da fase de vencer pequenas dificuldades para realmente atingir grandes objetivos? Será que estar lá JÁ É atingir grandes objetivos?
Aqui eu não estou só, mas me sinto mais vunerável, ao mesmo tempo vejo um futuro promissor, que só precisa da minha dedicação pra acontecer. Mas eu não me dedico! Eu não fico aqui tempo suficiente para algo se construir. Será que voltando um dia eu terei de recomeçar do zero? Será que o futuro promisso ainda será atingível, será tarde mais para chegar a ele? Ou será que voltando o caminho que fiz lá será considerado aqui?
Estas perguntas martelam na minha cabeça todos os dias... se eu nunca tivesse ido, nunca teria de pensar em voltar ou ficar, mas eu fui. Para me tranquilizar ás vezes eu penso que o melhor é não especular muito e sim ir fazendo o que  minha intuição diz. E assim como minha intuição tempos atrás disse "Vá!" e agora ainda diz: "Fique!", eu confio que um dia ela dirá :"Volte!" ou "Não volte mais!".  E eu voltarei ou não e o destino se cumprirá inevitavelmente, seja ele qual for. E possivelmente ele será o que eu um dia intuí, porque prefiro acreditar que só intuímos o que o nosso íntimo já sabe que é possível e o melhor para nós. Ou seja, só existem escolhas certas!
Depois de algumas semanas chegou a fase de adaptação, parei de comparar, comecei a dançar conforme a música. Especialmente agora, estando aqui no Brasil há três meses, e minha cabeça já está começando a querer trabalhar e planejar o futuro, parece que nunca saí daqui, que o tempo parou e preciso recomeçar de onde eu estava... Mas onde eu estava na prática não existe mais. E eu me sinto confusa... será que o outro mundo é um sonho?  Daí falta uma semana para pegar o avião....
Daí me questiono se devo ir, sei que vou ficar confusa de novo.... mas claro que quero ir, por que não iria? Ir pra onde? Pra lá ou pra cá? Pra onde estão minhas coisas, meu trabalho ou pra onde estão minhas raízes, minhas memórias, meus amores?
Mas onde estão meus amores?
Oh, vida!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Socorro! Crise de quero voltar para o Brasil !

Há meses penso sempre na mesma coisa, na verdade desde que cheguei aqui.
Mas eu quis tentar. Meu instinto aventureiro falou alto, mesmo que eu não tivesse o menor preparo para isso.

E cada dia minha vontade aumenta...
Daí pensando encontrei este post que traduziu tudo o que eu pensava.
http://superficialexpectation.blogspot.com/2009/06/por-que-voltar-pro-brasil.html

Já conheci coisas muito legais, valeu a pena.
Sou muito agradecida ao Martin que me ajudou tanto. 
De vez em quando tenho experiencias maravilhosas no grupo de teatro. De vez parece definitivamente que  nao compensa. É muito sacrifício para nao ter a metade da diversão e da alegria de viver que eu tinha no Brasil.
Não poder me comunicar totalmente me frusta muito. Eu adoro falar! Se aprendi o pouco que posso desta língua foi por desespero! 
No começo e tudo é novo e vc acredita que tudo vai dar certo, engole sapos, chora e pensa positivo. Com o tempo vira desânimo e chateação.
Ai que saudades da correria e do barulho brasileiro!
Tenho medo de ser assaltada, mas considerando que nao tenho nada de valor....
Viver na europa é virar alface, li que um brasileiro escreveu para alguém sobre sua vida na europa. Deus me livre! Ilusão.
Europa só volto pra passear.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Auto-ajuda para brasileiros no exterior sofrendo de baixa auto-estima

No momento que escrevo estas linhas estou muito feliz.
Apesar do frio, que dói, mas ensina, apesar da saudade que as vezes me acomete, tenho de afirmar que estou feliz, sou feliz na Alemanha. Nao que eu nao fosse feliz no Brasil, mas eu nao estava feliz comigo mesma.
A experiência de estar aqui todos estes meses, logo 2 anos, tem sido um grande aprendizado. A cada dia, tenho de transpor algum limite que eu construi para mim mesma ao longo dos meus anos de vida. Limites emocionais, intelectuais, físicos, sociais, culturais.

Hoje, depois de praticamente um mês sem dar as caras por aqui, apareco para registrar a sensacao de plenitude, leveza e liberdade que sinto neste momento.

Ontem , eu estive trabalhando, finalmente em algo que eu queria muito, eu passei esta última semana horas, horas e mais horas fazendo este trabalho, pesquisando, escrevendo,  e aprendendo como fazê-lo. Sim, eu comecei a fazer o trabalho, porque me perguntaram: "Vc sabe fazer isso?" E eu me senti tao feliz pela proposta que, apesar de saber que eu nunca tinha feito sozinha e nao tinha idéia de como fazia, eu disse "Sim. Pra quando deve ficar pronto?". Eu o fiz, e no prazo determinado, e ficou liiiiinnnndo!!

Me peguei entao descobrindo onde eu tinha chegado naquele momento, onde eu estava, como eu estava, no que eu me tornei nos últimos meses, e fiquei satisfeita. E fiquei agradecida a mim mesma por ter tomado a decisao tao difícil no comeco, de ter ficado aqui. Eu sabia que todo o esforco que eu estava fazendo serviria para algo, para me fazer crescer.

Há alguns meses atrás eu quase desisti, quase comprei minha passagem de volta, já estava mesmo com as malas prontas, mas a sensacao de derrota, de abandono do jogo que senti, nao me deixou desistir.
E eu percebi que eu já estava aqui, já tinha deixado minha antiga vida, já nao estava podendo exercer minha profissao, já tinha ficado sozinha, já tinha me fudido pra caralho e chorado pra caralho, e que eu nao tinha mais nada a perder!! Eu já estava fudida! Eu já tinha me fudido! EU JÁ TINHA ESCOLHIDO ME FUDER !!!! Entao, o mínimo que eu podia fazer para valer a pena tanta fudecao.
E eu decidi nao ficar mais sentindo saudade, nao ficar me submetendo a uma vida que eu nao teria no Brasil e realmente construir as coisas por aqui.

E foi só tomar a decisao que as oportunidades comecaram a aparecer, inicialmente oportunidades que me fuderam sempre um pouquinho mais, mas que em vez de chorar eu dizia "Ok, eu já estou fudida mesmo, nao tenho nada mais a perder, eu quero que vá tudo ao raio que o parta!!!  (Sim, tem horas que eu falo palavrao, e tem sido muito bom.)

Para vcs terem idéia, eu me resignei a ser humilhada por muita gente mau humorada, chata, querendo se sentir superior porque domina a língua melhor do que eu,  (detalhe, a maioria estrangeiro também!) E se fosse no Brasil eu nao aturaria esta situacao, mas eu pensava: "Ah, deixa quieto, eu tenho que aprender, as coisas sao assim mesmo, um dia eu volto para o Brasil e tudo será melhor... " Aprender?  Aprender o caralho! E vai dizer que no Brasil também nao tem filho da puta? Entao agora quando eu encontro um desses infelizes, eu aproveito a oportunidade de xingar numa língua que ele nao vai entender e digo com ares de estar falando algo muito sério: "Puta merda, mas vc é mesmo um cuzao-filho-de-uma-puta,  devia mesmo é ir tomar bem no meio do seu cú",  e quando estou de bom humor e sinto pena do coitado, dou um sorriso amarelo, finjo bom humor e digo: "Nossa, vc deve estar muito infeliz hoje, que vida ruim que vc tem, vc devia tirar umas férias, ir a uma praia, tomar um pouco de sol, beber cerveja, beijar de língua, dancar.... ia te fazer bem!" 

E o mais interessante, é que adotar esta forma de acao mudificou bastante e para melhor o meu humor antes triste, resignado, frustrado. Agora, quando eu percebo oquê estou falando, inevitavelmente comeco a rir da situacao, principalmente se o infeliz nao entendeu bulhufas do que eu estava dizendo e ficou me olhando com cara de pastel.

Entao agora eu estou sempre de bom humor.  E o bom humor tem me feito mais confiante, e eu nao me contento mais com pouco: já que é pra eu me fuder, quero que seja uma foda da hora mano! Afinal foda ruim ninguém merece.

Eu eu devo registrar que hoje eu acho que  perdi meu trabalho no restaurante, que eu estava ODIANDO  há meses (?!), mas pensava: "Ah nao, é um salário fixo, que paga tudo direitinho, com contrato, pagando imposto... blá-blá-blá". Mas depois de ontem ter conseguido, pela primeira vez, terminar com sucesso um trabalho foda aqui, eu volto a fazer trabalho bracal no restaurante, e vem o meu chefinho com a sua comum delicadeza gritar na minha orelha e me tratar como uma débil mental. Anteriormente, por nao ter como responder, por causa da língua, eu fui me habituando a abaixar a cabeca e tentar fingir que nao ouvia, mas hoje eu lhe disse: "Olhe, está difícil trabalhar com vc, vc está muito mau humorado e está me deixando mau humorada também, e eu nao quero ficar mau humorada! E ele respondeu nada suavemente: "Se vc nao quer trabalhar com meu mau humor entao vá embora, adeus!" Por um micro-momento eu relutei mentalmente: "Vixi, se eu for estarei fudida, acho que terei perdido o emprego, se eu ficar tenho de engolir meu orgulho, abaixar a cabeca mais uma vez e dar uma de que  preciso muito deste trampo.... hum... mas eu preciso do trampo mesmo.... ah, mas só pela grana! .... hum... ah.... mas eu fiz um trabalho foda ontem, eu posso fazer coisa muito melhor do meu tempo, e eu vou conseguir coisa muito melhor, na minha área, e logo! ....  Mano, fudida por fudida, eu já estou fudida há muito tempo: "Ok, adeus, passe bem!"

Peguei minhas coisas e vim para casa.
E estou feliz.

Fudida porém feliz !!!!

;-)


PS.a): O texto pode parecer irônico, mas nao é. Eu estou realmente feliz.

PS.b): "A maior recompensa do nosso trabalho nao é o que nos pagam por ele, mas no que ele nos transforma"
                     John Ruskin